O que é que herdamos dos nossos pais?

Herdamos muita coisa da nossa família, e bem mais do que pode pensamos à primeira vista. Para além da nossa aparência: cor de pele, os olhos, o formato do nariz, etc., há também um conjunto de aprendizagens e comportamentos que nos são dados no nosso ADN.

A forma como sentimos, e gerimos emoções é uma combinação das nossas experiências de vida, com a herança dos nossos antepassados, que fica guardada no nosso inconsciente.

Ao longo de um processo de psicoterapia, é muito comum apercebemo-nos de que estamos a rejeitar ou a repetir padrões comportamentais, a viver ansiedades ou traumas que na verdade não são nossos.

Entendermos de que forma é que as vivências e as dores dos nossos antepassados, interferem no nosso dia a dia, na imagem que temos sobre nós próprios e em como nos relacionamos com os outros, é o primeiro passo para deixarmos de viver agarrados a dores que não nos pertencem.

A nossa história começa com a história dos nossos pais

Quando olhamos para trás, e pensamos sobre toda a nossa vida, conseguimos entender o impacto que a relação com os nossos pais teve na nossa vida, e nos tipos de relações que estabelecemos com os outros hoje em dia. Conseguimos entender que, quando temos pais ausentes, ou agressivos, temos dificuldades em confiar nos outros, e ter relações saudáveis. Se pelo contrário, os nossos pais eram presentes e carinhosos, também conseguimos entender que naturalmente procuramos relações semelhantes a essa, na nossa vida adulta.

Contudo, o papel que os nossos pais tem na forma como nos sentimos, e gerimos as nossas emoções, começa muito antes da relação que tivemos com eles durante a nossa infância.

Isto porque, a nossa identidade e a forma como gerimos as emoções está presente na herança genética que recebemos dos nossos pais, não no nosso ADN, mas na nossa memória e inconsciente. E esta herança emocional que recebemos, molda-nos ao ponto em que acabamos por repetir estes padrões disfuncionais, ou ansiedades e traumas que não foram vividos por nós.

O que é que herdamos dos nossos antepassados?

Ao longo dos anos, vários especialistas deram diferentes nomes a este fenómeno. Freud chamava-lhe “alma coletiva da família”, Carl Jung “inconsciente coletivo”, e Moreno “co-inconsciente”. Contudo, a psicologa Anne Ancelin Schützenberger aprofundou os conhecimentos nesta área, criando um novo campo de estudo a que batizou de psicologia transgeracional.

Esta corrente da psicologia defende que o legado psicológico que nos é passado pela nossa família, como os traumas que são passados para o nosso inconsciente, podem ser transmitidos durante sete gerações, mesmo que não exista socialização com esses antepassados.

Para além disso, demonstrou-nos também que existem repetições de padrões relacionais, tanto positivos como negativos, que repetimos de forma inconsciente. E este padrões estão presentes em nós, através de mecanismos que vão muito para além da nossa experiência ou memória.

Embora ainda não seja claro como é que isto acontece, acredita-se que estas informações sejam transmitidas para nós através de marcadores epigenéticos, presentes no nosso ADN, que através das nossas vivências se podem ativar.
A epigenética é uma ciência que estuda as alterações que ocorrem nos nossos fenótipos (que são como os pequenos componentes do nosso ADN). As suas descobertas indicam-nos que tudo o que somos é 20% o nosso ADN, e 80% as experiências vividas por nós. Explicado de forma simples, é como se aquilo que vivenciamos tivesse a capacidade de ativar, ou desativar, características presentes no nosso ADN.

Estudos da investigadora Rachel Yehuda, com descendentes de sobreviventes do Holocausto vem reforçar o que já era defendido pela psicologia transgeracional. É sabido que este grupo de sobreviventes demonstra com frequência sintomas de stress pós-traumático, predisposição para doenças psicossomáticas e outras complicações do ponto de vista psicológico. Contudo, este estudo veio mostrar-nos que existem alterações nos marcadores epigenéticos, não só nos sobreviventes, mas também nos seus descendentes, pelo menos, até à terceira geração.

O trauma parece ficar inscrito nos nossos genes, o que pode explicar sintomas traumáticos de coisas que não foram vividas por nós, e que nem sabemos que aconteceram.

Como é que a nossa herança interfere na nossa vida?

Quando não estamos conscientes da herança psicológica que recebemos da nossa família, podemos passar a vida inteira a repetir padrões, ou a experienciar sintomas de traumas ou ansiedades que não foram vividos por nós. A forma como estes interferem na nossa vida, depende do que foi herdado.

Por exemplo, se a nossa mãe tiver vivido uma situação de violência doméstica, é possível que tenhamos dificuldades em estabelecer relações saudáveis, na nossa vida adulta. Isto porque, ou temos dificuldade em confiar e permitir que os outros entrem na nossa vida, ou pelo contrário, procuramos inconscientemente relações que alimentem esse padrão abusivo.

Por outro lado, uma criança cujo o pai tenha um comportamento abusivo com o álcool, tem maiores probabilidades de desenvolver alcoolismo, mesmo que nunca tenha tido contacto com o progenitor.

Para além da forma como nos relacionamos com os outros, herdamos muitas ideias, valores, normas, preconceitos etc., que muitas vezes entram em conflito com a nossa forma de ver o mundo, os outros, e até a nós mesmos. Toda esta informação está guardada em nós e chegou-nos através de vários veículos, várias situações e episódios dos quais, por vezes, nem guardamos memória.

Como nos livrarmos de dores que não nos pertencem?

Enquanto não tomarmos consciência destes padrões que herdamos nos nossos antepassados, iremos continuar a repeti-los na nossa vida adulta. Apenas se entrarmos em contacto com as nossas memórias, emoções, com as nossas crenças, pensamentos e padrões comportamentais, é que conseguimos deixar de viver a nossa vida carregando dores que não nos pertencem.

Precisamos de um espaço para desconstruir toda esta informação presente no nosso inconsciente para a podermos colocar em causa, e decidir o que é que queremos deixar ir. Na grande maioria das vezes este é um processo que não poderemos fazer sozinhos, e por isso é importante procurar um especialista.

E em última análise devemos pensar em o que é que queremos transmitir aos nossos filhos. Isto porque, enquanto não agirmos sobre esta memória coletiva, e não decidirmos quebrar o padrão, ele continuará a passar, de geração em geração.